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Fale a data: dias da língua e como ganharam suas datas

“Fale a data” é um convite a olhar o calendário por outra lente: a das línguas. Este guia mostra como e por que surgiram os principais dias da língua no mundo — do Dia Internacional da Língua Materna aos seis Dias da Língua da ONU — e como países transformam história, literatura e identidade em celebração anual. Se você quer entender a lógica por trás das datas e ver exemplos práticos de comemoração, está no lugar certo.

O que são os “Dias da Língua” e por que importam?

São datas oficiais dedicadas a promover o uso, a diversidade e a valorização das línguas — da sua língua materna àquelas reconhecidas internacionalmente. Elas ajudam a:

  • Preservar o patrimônio imaterial: muitas línguas estão em risco; visibilidade e ensino fazem diferença.
  • Estimular educação inclusiva: aprender na língua que você fala melhora resultados escolares.
  • Conectar comunidades: literatura, música e mídia em cada língua fortalecem identidades.

Estima-se que haja cerca de 7.000 línguas no mundo, com uma parcela significativa ameaçada. A UNESCO alerta que ao menos 40% da população global não tem acesso à educação em uma língua que fala ou entende plenamente.

Dia Internacional da Língua Materna (21 de fevereiro)

Data: 21 de fevereiro

Por que nesse dia? Em memória aos estudantes do Movimento pela Língua Bengali mortos em 21 de fevereiro de 1952, em Daca (atual Bangladesh), ao protestarem pelo reconhecimento do bengali. Proclamado pela UNESCO em 1999, o dia é observado globalmente desde 2000.

Como é celebrado?

  • Escolas e universidades organizam recitais, feiras de literatura e maratonas de leitura em línguas locais.
  • Comunidades migrantes promovem oficinas de alfabetização e eventos com poesia, música e gastronomia.
  • Governos e ONGs lançam campanhas de preservação de línguas indígenas e materiais didáticos multilíngues.

Impacto: o dia impulsiona políticas de educação bilíngue, digitalização de acervos e normalização do uso público de línguas minoritárias.

Dias da Língua da ONU: 6 datas, 6 histórias

Para promover o multilinguismo e o equilíbrio entre suas línguas oficiais, a ONU instituiu seis dias dedicados a cada uma delas — cada data escoltada por um marco cultural ou histórico.

  • Árabe — 18 de dezembro: marca 18/12/1973, quando a Assembleia Geral reconheceu o árabe como língua oficial da ONU. Eventos destacam caligrafia, poesia e debates sobre terminologia contemporânea.
  • Chinês — 20 de abril: associado ao Guyu (Chuva de Grãos), termo solar ligado à lenda de Cangjie, o mítico inventor dos caracteres chineses. Atividades incluem oficinas de escrita e etimologia.
  • Inglês — 23 de abril: aniversário (e provável data de falecimento) de William Shakespeare. Leitura dramática, clubes de livro e desafios de sonetos são comuns.
  • Francês — 20 de março: alinhado ao Dia Internacional da Francofonia, que lembra o acordo fundador da cooperação francófona em 1970. Ditados coletivos e “cafés francófonos” marcam a data.
  • Russo — 6 de junho: nascimento de Aleksandr Pushkin, pai da literatura russa moderna. Recitais de poesia e concursos de tradução ganham destaque.
  • Espanhol — 23 de abril: ligado a Miguel de Cervantes e ao Dia Mundial do Livro. Feiras literárias e leituras de Dom Quixote pontuam a celebração.

Por que importa? Além de equilibrar a produção e tradução de documentos, essas datas convidam o público a explorar culturas, literatura e mídia em cada uma dessas línguas globais.

Europa plural: Dia Europeu das Línguas (26 de setembro)

Data: 26 de setembro

Origem: criado pelo Conselho da Europa em 2001 (após o Ano Europeu das Línguas), para celebrar a diversidade linguística e o aprendizado ao longo da vida.

Como é celebrado? Festivais multilíngues, aulas abertas, jogos linguísticos em escolas e campanhas digitais. Com 24 línguas oficiais da UE e 60+ línguas regionais e minoritárias, a data reitera que plurilinguismo é competência cidadã.

Português em foco: 5 de maio

Data: 5 de maio — Dia Mundial da Língua Portuguesa

Origem: estabelecido pela CPLP em 2009; em 2019, a UNESCO proclamou o 5 de maio como data mundial. Desde então, museus, universidades e centros culturais lusófonos coordenam programação em rede.

Como se celebra? Leitura de autores da lusofonia, debates sobre tradução e circulação editorial, eventos de música e cinema de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

Exemplos nacionais: quando a história vira calendário

  • Bangladesh — 21 de fevereiro: Shaheed Day (Dia dos Mártires da Língua) homenageia o bengali, com vigílias, flores nos memoriais e recitais.
  • Espanha (Galícia) — 17 de maio: Día das Letras Galegas celebra a literatura galega desde 1963, na data da publicação de “Cantares Gallegos” (1863), de Rosalía de Castro.
  • País Basco — 3 de dezembro: Dia Internacional do Basco (Euskararen Nazioarteko Eguna) promove o euskera com atividades em escolas e mídia regional.
  • Finlândia — 9 de abril: Dia da Língua Finlandesa honra Mikael Agricola, “pai” do finlandês literário, com eventos acadêmicos e leitura pública.
  • Islândia — 16 de novembro: Dia da Língua Islandesa, no aniversário de Jónas Hallgrímsson; oficinas de poesia e campanhas por uso correto no serviço público.
  • Estónia — 14 de março: Dia da Língua Materna celebra o estoniano em tributo ao poeta Kristjan Jaak Peterson.
  • Índia — 14 de setembro: Hindi Diwas marca a adoção do hindi em escrita devanágari como língua oficial (1949); prêmios, debates e concursos de redação.
  • Filipinas — agosto (mês): Buwan ng Wika promove o filipino e as línguas filipinas; 19 de agosto, aniversário de Manuel L. Quezon, tem destaque.
  • Paraguai — 25 de agosto: Dia da Língua Guarani reforça o bilinguismo oficial, com ações em escolas e meios de comunicação.
  • Peru — 27 de maio: Dia das Línguas Originárias do Peru incentiva documentação, ensino e mídia em quéchua, aimará e línguas amazônicas.
  • Nova Zelândia — 14 de setembro: Dia da Língua Maori lembra a petição de 1972 ao Parlamento; a semana nacional (setembro) mobiliza escolas e rádio.
  • Irlanda — março: Seachtain na Gaeilge (Semana da Língua Irlandesa) cria uma ponte entre o irlandês e o Dia de São Patrício, com música e teatro.
  • País de Gales — 13 de outubro: Diwrnod Shwmae Su’mae convida todos a iniciar conversas em galês, normalizando saudações no dia a dia.
  • Canadá (Nunavut) — fevereiro: Uqausirmut Quviasuutiqarniq celebra o inuktut com programação comunitária e campanhas educativas.
  • Estados Unidos — primeira semana de março: National Foreign Language Week (desde 1957) mobiliza escolas e universidades com feiras e mostras culturais.
  • Mundo — 23 de setembro: Dia Internacional das Línguas de Sinais destaca direitos linguísticos da comunidade surda.

Como essas datas são escolhidas: padrões que se repetem

  • Aniversários de ícones literários: Shakespeare (inglês), Pushkin (russo), Jónas Hallgrímsson (islandês), Mikael Agricola (finlandês).
  • Atos e marcos institucionais: reconhecimento do árabe na ONU (18/12/1973); 5 de maio pela CPLP/UNESCO; adoção do hindi (1949).
  • Movimentos sociais e memória: mártires do bengali (21/2/1952); petição maori (14/9/1972).
  • Calendário simbólico: Guyu para o chinês; datas ligadas a publicações fundacionais (17/5 na Galícia).
  • Alinhamento estratégico: coincidências com o Dia Mundial do Livro (23/4) e o Dia da Francofonia (20/3) amplificam alcance.

Como celebrar e engajar: ideias práticas

  • Para escolas: clubes de leitura multilíngues; “duelos de dicionários”; saraus de poesia com tradução comentada.
  • Para universidades: hackathons terminológicos; maratonas de edição em plataformas colaborativas para línguas minorizadas.
  • Para empresas: oficinas de comunicação inclusiva; guias de estilo bilíngues; campanhas internas com saudações em várias línguas.
  • Para cidades: sinalização temporária bilíngue em praças; mapas culturais de livrarias e bibliotecas por língua.
  • Para mídias e criadores: séries de microvídeos com expressões intraduzíveis; playlists de música em línguas regionais.

Calendário rápido: principais marcos em um olhar

  • 21 de fevereiro: Dia Internacional da Língua Materna
  • 20 de março: Dia da Língua Francesa (ONU) e Dia da Francofonia
  • 20 de abril: Dia da Língua Chinesa (ONU)
  • 23 de abril: Dias da Língua Inglesa e Espanhola (ONU) e Dia Mundial do Livro
  • 5 de maio: Dia Mundial da Língua Portuguesa
  • 6 de junho: Dia da Língua Russa (ONU)
  • 26 de setembro: Dia Europeu das Línguas
  • 18 de dezembro: Dia da Língua Árabe (ONU)

FAQ

  • Qual a diferença entre o Dia Internacional da Língua Materna e os Dias da Língua da ONU?

    O Dia Internacional da Língua Materna (21/2) celebra todas as línguas e o direito de aprender e viver na própria língua. Já os Dias da Língua da ONU destacam, em datas específicas, cada uma das seis línguas oficiais da organização (árabe, chinês, inglês, francês, russo e espanhol).

  • Por que 23 de abril vale para inglês e espanhol?

    Porque a data homenageia dois pilares literários: William Shakespeare (inglês) e Miguel de Cervantes (espanhol), e também coincide com o Dia Mundial do Livro, o que amplia o alcance das ações culturais.

  • O Dia da Língua Chinesa muda de ano para ano?

    Na ONU, a data é fixada em 20 de abril, associada ao termo solar Guyu e à lenda de Cangjie. Em calendários tradicionais, o Guyu pode variar ligeiramente, mas a comemoração oficial da ONU ocorre sempre no dia 20.

  • Quais estatísticas mostram a urgência de preservar línguas?

    Há cerca de 7.000 línguas no mundo e uma parcela expressiva está ameaçada. Estimativas indicam que uma língua pode desaparecer a cada poucas semanas e que milhões de estudantes ainda não têm acesso à educação na língua que melhor compreendem.

  • Existe um “dia da língua portuguesa” reconhecido globalmente?

    Sim. O Dia Mundial da Língua Portuguesa é comemorado em 5 de maio, estabelecido pela CPLP e proclamado pela UNESCO em 2019, com programação ampla na lusofonia e em centros culturais pelo mundo.

  • E as línguas de sinais, têm uma data?

    Sim. O Dia Internacional das Línguas de Sinais é celebrado em 23 de setembro, ressaltando o direito linguístico das pessoas surdas e a importância da inclusão em serviços públicos, educação e mídia.

  • Como uma instituição pode começar a celebrar um dia da língua?

    Defina um foco (leitura, oralidade, tradução), convide parceiros locais (bibliotecas, coletivos, escolas), produza conteúdos acessíveis (materiais em mais de uma língua e em formatos inclusivos) e promova participação ativa (concursos, oficinas, microvoluntariado digital).